quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um outro Canto de Páscoa

          
          Em 1978, entrou pela primeira vez em Portugal o FMI. Nessa altura disseram que vinham para a ajudar e eu vi assim a Páscoa. Hoje, passados todos estes anos, coincidência ou talvez não, aí estão eles outra vez, os representantes do capitalismo mais puro, dizer que nos vão ajudar a vencer a crise. Só se for a crise da máquina deste Estado corrupto e gastador, só se for a crise dos interesses da alta finança, só se for a crise dos grandes grupos económicos, aqueles que dizem que aumentar o salário mínimo para 500 euros é incomportável, para a economia das empresas. Ajudar a vencer a crise das classes mais desfavorecidas não é de certeza, porque é sempre por aí que eles começam a cortar. É por aí que as primeiras acções vão começar. Cortando salários e pensões, aumentando impostos e preços, criando com isso menos poder de compra e mais desemprego. Não é preciso ser economista para ver isso, embora muita gente pense o contrário. Esta democracia está falida de valores morais, sociais e intelectuais.

Chegou a Páscoa, aleluia!
Dão-se amêndoas, tocam sinos.
Há compadres das comadres,
há comadres dos compadres,
afilhados e padrinhos.

Há amêndoas cor-de-rosa,
amarelas e encarnadas,
amêndoas que são torradas,
outras que torradas são.
Amêndoas da cor do ouro,
amêndoas da cor da relva,
de cor de burro-a-fugir
e também da cor da merda,
(amêndoas que trampa são).
Há quem as coma chupando,
outros que as cortam ao meio,
há quem chupe a dos outros,
(são os chupistas sem pasta),
há quem lhes coma o recheio,
outros que comem a casca.
Há também quem coma amêndoas,
molhadas em caramelo,
mas outros para as comer,
têm que partir a casca,
com a cabeça do martelo.

Mas também temos os ovos,
nesta quadra que não quadra.
Não são ovos de galinha,
nem de pomba, nem de pata,
não são ovos de baleias,
nem ovos de coser meias.
São ovos bem recheados,
numa prata embrulhados,
com uma fita enfeitada
de cor verde ou encarnada
ou de outra cor normal.
Muitos cheios de bombons
e muitos cheios de nada.
(Pelo menos fica a prata,
para fazer bonequinhos
e estrelas para o Natal).
Por isso, no fim de contas,
não estamos assim tão mal!

Mas nesta quadra festiva,
que muito querem de paz,
há pessoas que não comem,
nem amêndoas, nem as cascas.
Sugam no ar a ilusão
de um sonho que se desfaz,
nos copos bebidos em tascas.
Bebem o vinho da vida,
partem o coração ao meio,
dão marteladas no tempo.
Mas ninguém ouve o lamento,
do vento que grita e passa,
trazendo o canto da fome
nos seus telhados de lata.
São cantos de uma criança,
que a míngua fenece e mata.
São cantos da casa nua,
coros do pão e da vida,
hinos de dor sobre a terra.
São cantos da noite escura,
dos tiros de uma espingarda,
no triste cantar da guerra.

Chegou a Páscoa, aleluia!
Dão-se amêndoas, tocam sinos.
Há compadres sem comadres,
há comadres sem compadres,
afilhados sem padrinhos.

Castelo Branco, Páscoa de 1978

Texto: Victor Gil 

4 comentários:

António Gallobar disse...

Uma boa Pascoa também para si e é urgente não esquecer Abril...

Grande abraço

RosanAzul disse...

"Mas nesta quadra festiva,
que muito querem de paz,
há pessoas que não comem,
nem amêndoas, nem as cascas.
Sugam no ar a ilusão
de um sonho que se desfaz,
nos copos bebidos em tascas."...

Gil meu querido, lindo e expressivo eu poema de Páscoa... gostei demais desta última parte da teu poema...
Uma feliz páscoa meu querido pra ti e para toda tua família!
Coma castanhas então por mim! Aqui não as tenho!! rsrs
Meu carinho de sempre! RO

rouxinol de Bernardim disse...

Páscoa Feliz

dilita disse...

Quando a poesia mesmo bela, retrata a tristeza de tanto ser humano... Enquanto uns esbanjam,outros definham,é a triste realidade.
O mundo,ou melhor, a humanidade é imperfeita,e nem procura melhorar...

Gostei muito deste seu trabalho em verso. Só hoje vi,mas vim a tempo.Saudações.